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Por que fortalecer a perna NÃO resolve a marcha no Parkinson?

  • Foto do escritor: Dra Rachel Guimaraes
    Dra Rachel Guimaraes
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Paciente realizando treino de marcha em esteira neurofuncional
Treino de marcha é essencial no Parkinson

É muito comum ouvir a seguinte orientação:“Você precisa fortalecer as pernas para andar melhor.”

A recomendação faz sentido, afinal, músculos mais fortes ajudam na sustentação do corpo. No entanto, quando falamos em Doença de Parkinson, essa explicação é incompleta.

Fortalecer a perna, isoladamente, não resolve a marcha.

E entender o porquê muda completamente a estratégia de tratamento.



O problema da marcha no Parkinson não é apenas muscular

No Parkinson, a principal alteração está no funcionamento dos circuitos cerebrais responsáveis por organizar o movimento automático.

Andar, para a maioria das pessoas, é algo automático. No Parkinson, deixa de ser.

A pessoa pode ter força preservada nas pernas, mas apresentar:

  • Passos curtos

  • Lentidão (bradicinesia)

  • Dificuldade para iniciar a marcha

  • Bloqueios (freezing)

  • Instabilidade nas viradas

  • Redução do balanço dos braços

Nenhum desses problemas é causado apenas por fraqueza muscular.

Eles estão relacionados à dificuldade do cérebro em programar, ajustar e manter o ritmo do movimento.


Marcha é coordenação, ritmo e adaptação

A marcha depende de múltiplos sistemas trabalhando juntos:

  • Planejamento motor

  • Controle postural

  • Integração sensorial

  • Ajustes automáticos ao ambiente

  • Ritmo interno do movimento

Quando treinamos apenas forçaem aparelhos ou exercícios isolados, estamos estimulando o músculo, mas não necessariamente treinando o cérebro a organizar o andar.

É como fortalecer o motor de um carro, mas não ajustar o sistema de direção.


Então fortalecer não é importante?

É importante, sim.

A força muscular contribui para:

  • Melhor absorção de impacto

  • Maior segurança ao subir escadas

  • Melhor sustentação postural

  • Prevenção de sarcopenia

O erro está em acreditar que isso, sozinho, resolverá a marcha.

No Parkinson, a marcha precisa ser treinada de forma específica.


O que realmente melhora a marcha?

Intervenções mais eficazes costumam incluir:

  • Treino com pistas externas (auditivas ou visuais)

  • Treino de amplitude de movimento

  • Exercícios com mudança de direção

  • Treino de dupla tarefa

  • Estratégias para prevenção de freezing

  • Treino funcional em ambientes variados

Essas abordagens estimulam os circuitos cerebrais responsáveis pelo controle motor, ajudando o paciente a reorganizar o padrão de marcha.


O cérebro precisa reaprender

No Parkinson, o tratamento não é apenas muscular. É neurológico.

A fisioterapia neurofuncional direcionada trabalha não só o músculo, mas a forma como o cérebro ativa esse músculo.

Quando o treino é específico, a marcha pode se tornar mais ampla, mais segura e mais eficiente.


E onde entra o treino em esteira neurofuncional?

Muitas pessoas associam a esteira apenas ao condicionamento cardiovascular. No contexto da reabilitação neurofuncional no Parkinson, ela pode ter um papel muito mais específico.

Quando utilizada com estratégia terapêutica adequada, a esteira não é apenas um exercício de caminhada ela se torna uma ferramenta de reorganização motora.


A esteira como organizadora de ritmo

Um dos principais desafios na marcha do Parkinson é a dificuldade em manter ritmo e amplitude.

A esteira impõe:

  • Velocidade constante

  • Ritmo contínuo

  • Sequência repetitiva de passos

Esse ambiente previsível oferece ao cérebro uma “pista externa” implícita, ajudando a regular a cadência e reduzir a variabilidade do passo.

Em muitos pacientes, isso favorece:

  • Aumento do comprimento do passo

  • Redução da bradicinesia

  • Melhor simetria

  • Menor tendência ao arrastar os pés


Repetição intensiva e neuroplasticidade

A marcha na esteira permite alta repetição em um período curto de tempo.

E repetição, no contexto neurológico, significa oportunidade de neuroplasticidade.

Ao repetir um padrão de marcha mais organizado, o cérebro recebe estímulos consistentes para reforçar circuitos motores mais eficientes.

Quando o treino é associado a:

  • Feedback verbal

  • Ajustes posturais

  • Treino de amplitude

  • Desafios graduais de velocidade

O efeito vai além do condicionamento físico, passa a ser um treino motor direcionado.


Segurança e progressão controlada

Outro benefício é a possibilidade de controle preciso de parâmetros como:

  • Velocidade

  • Inclinação

  • Duração

  • Suporte parcial de peso (quando disponível)

Isso permite progressão individualizada e segura, especialmente em pacientes com instabilidade ou risco de queda.

Além disso, o treino pode incluir:

  • Variação de velocidade

  • Inserção de dupla tarefa

  • Mudanças programadas de ritmo

O que amplia o desafio neuromotor.


Mas atenção: não é “andar por andar”

A diferença está na forma como a esteira é utilizada.

Caminhar de maneira automática, sem direcionamento, tende a reproduzir o padrão alterado.

Já o treino neurofuncional na esteira envolve:

  • Correção ativa da postura

  • Estímulo de passos mais amplos

  • Atenção ao balanço de braços

  • Estratégias para iniciar e manter o movimento

Ou seja, é um treino intencional.


Fortalecer é importante. Organizar o movimento é essencial.

No Parkinson, a força muscular é apenas uma parte da equação.

A marcha melhora quando trabalhamos:

  • Ritmo

  • Amplitude

  • Coordenação

  • Controle postural

  • Estratégias cognitivas

A esteira é uma aliada importante nesse processo. Não porque fortalece a perna. Mas porque ajuda o cérebro a reaprender a andar.


 
 
 

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